Este estado do intelecto (katastasis = estado de ser, caráter; nous = intelecto, espírito, inteligência) que Evagrio refere-se para definir a prece espiritual, assim Isaac o Sírio que a contrapõe à prece recitativa.
Voltemos agora para uma passagem chave que menciona a dimensão trinitária da oração pura. Evagrio escreve: “A oração [proseuche] é um estado da mente que surge sob a influência da luz única da Santíssima Trindade.” Evagrio indubitavelmente intenciona aqui a oração pura, evidenciado pelo termo “estado da mente” (katastasis nous). O termo chave de interesse aqui é “surge”—ginomene, do ginomai, o mesmo termo que Evagrio usa para fazer referência à criação divina em Notas sobre o Eclesiastes, 38. Aqui Evagrio designa a oração pura como algo criado ou feito pela Santíssima Trindade, tal como em Notas sobre o Eclesiastes, 38, o kosmos veio à existência ou foi feito pelo mesmo Deus. “Luz única” traduz photos monou. O termo monos (“única”) denota algo que é singular em quantidade—tal como “o único homem restante.” Mas o termo designa “única” no sentido de algo não apenas singular em quantidade, mas também em qualidade—algo que é diferente, tal como “o único Deus,” e, neste caso, a “luz pertencente apenas à Santíssima Trindade.” O termo para “luz,” photos, possui múltiplas aplicações. Primeiro, o termo denota “luz,” no sentido literal de luz física. Mas figurativamente, que é claramente como Evagrio intenciona o termo nesta passagem, refere-se à iluminação interior ou espiritual. A palavra inglesa “influence” (influência) não se encontra, de fato, no texto grego. Assim, traduzida literalmente, a passagem lê-se: “A oração é um estado da mente que advém sob a luz única da Santíssima Trindade.” O inglês “under” (sob) traduz o grego upo. Esta preposição significa “por,” no sentido de servir como o agente ou causa de algo. Também fala de localização física—tal como o livro está sob a cama. Mas, figurativamente, fala de algo ou alguém sob o poder de outrem. Com efeito, parece que o texto essencialmente indica: “A oração pura vem a ser por [hypo] a luz iluminadora única da Santíssima Trindade.” Ou talvez possa ser parafraseada: “A oração pura advém sob o poder de hypo a luz única da Santíssima Trindade.” Em qualquer sentido que Evagrio empregue o hypo, uma coisa é certa: a oração pura advém ou surge apenas sob ou pela operação do Deus Triúno. Evagrio não especifica a natureza exata desta operação iluminadora, nem especifica os papéis desempenhados por cada membro da Trindade; mas, contudo, o gnostikos obtém a oração pura apenas através da provisão graciosa do Rei Triúno. Nesta passagem, o Deus Triúno, e não o monástico, serve como a fonte da oração pura. E aqui, novamente, Evagrio conecta a providência divina com a oração pura. Tugwell reconhece este ponto, afirmando que a “mente é iluminada [isto é, levada ao estado de oração pura] apenas pela luz da Santíssima Trindade.” E na mesma linha Casiday observa: “O pináculo do progresso espiritual é a comunhão da mente imaterial com seu Deus imaterial. Esta comunhão ocorre durante a oração pura, quando o cristão em oração, despojado de todos os conceitos e paixões, é infundido com a luz da Santíssima Trindade.” (Tese de Doutorado. Divine Sovereignty, Divine Providence, and Prayer in the Thought of Evagrius Ponticus. Chris Steven Gombos. Loyola University Chicago)